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Entre a Coroa e a República Disfarçada

A monarquia não é um mero governo, mas o fundamento sagrado da ordem e da fé: sob tronos firmes floresceu a civilização europeia, ergueram-se catedrais e preservou-se, até hoje, a alma dos povos.

27 de novembro de 2025
Entre a Coroa e a República Disfarçada

Entre a Coroa e a República Disfarçada

Nos dias que correm, a Europa assiste ao declínio das antigas instituições, e muitos proclamam com ardor a defesa da tradição e dos valores que moldaram o nosso continente. Todavia, observa-se com pesar que tal zelo convive frequentemente com a rejeição da monarquia, fundamento primeiro da unidade e da ordem que sustentou os reinos por séculos. A verdadeira monarquia não se limita a constituições ou leis humanas, ela nasce da Providência Divina, firma-se na herança ancestral e revela-se ratione et natura, no espírito e na moral de um povo que reconhece no soberano o sinal da continuidade e da harmonia, preservando virtus publica e o ordo moral do reino. Com esse princípio, observa-se uma contradição profunda naquilo que, nos dias de hoje, se apresenta como “monarquismo” em grande parte da Europa.

A laicidade, pós-napoleónica, enfraqueceu o vínculo histórico entre monarquia e a Igreja, abrindo caminho para a secularização das sociedades e dificultando o papel moral e religioso tradicional dos soberanos quando adotada como norma nos Estados modernos, embora proclamada como garantia de liberdade, tem retirado da vida pública a orientação moral que por eras guiou a Europa. A neutralidade religiosa, longe de unir, dispersa os princípios que mantiveram coesa a identidade dos povos, abrindo caminho a ideologias passageiras e a influências externas que, desprovidas de raiz, corroem a estabilidade das nações.

Observa-se ainda que muitos sectores da direita contemporânea, ao proclamar a defesa da tradição, abraçam valores europeus e cultivam o amor à herança cultural, mas afastam-se da monarquia, ignorando que esta constitui o alicerce da própria ordem que desejam preservar. Compreender esta essência não é censura, mas um chamamento à consciência histórica, à reflexão sobre o poder sagrado e hereditário do soberano, capaz de guiar os povos, pois a monarquia tradicional é mais do que um regime político, é uma ordenação sacral do mundo, tecida de símbolos, de continuidade e de uma visão orgânica da sociedade, aquela mesma que erigiu catedrais, moldou costumes, ordenou o tempo litúrgico e civil, e deu à Europa o seu imaginário espiritual.

A experiência das monarquias europeias contemporâneas oferece um lúcido aviso. Reduzidas a funções cerimoniais, sujeitas à vontade de parlamentos efémeros e separadas das raízes religiosas que durante séculos deram-lhes substância, estas coroas transformaram-se em símbolos sem poder, ornamentos de um Estado que já não reconhece o princípio que o fundou. Quando o trono perde a sua dignidade plena, perde igualmente a capacidade de inspirar, de unir e de orientar moralmente a nação. Um rei que reina apenas por representação, despojado da autoridade que a tradição conferia, não pode erguer-se como guardião da identidade nem como farol da unidade do seu povo.

É pois neste reencontro com a tradição, na firmeza do direito natural e na sabedoria dos séculos, que Portugal e toda a Europa poderá restaurar a sua ordem, reforçar a unidade e cultivar nos corações dos povos a consciência de uma monarquia que não é mero governo ou título, mas expressão viva da Providência Divina, sustentáculo do bem, da fé e da continuidade dos reinos.